Modelos de treinamento intervalado

Em 1999, a fisiologista e professora Veronique Billat publicou um estudo no qual, em apenas quatro semanas, conseguiu obter um incremento do Limiar de Lactato, do VO2max e da economia de #corrida através da proposição de um programa semanal de treinamento de 6 dias com quatro sessões leves, uma de vVO2max e uma de Limiar de Lactato.

Segundo Billat, o VO2max não é um bom preditor da forma física por si só. Podemos obter melhores parâmetros de avaliação quando utilizamos a vVO2max – velocidade em VO2max e o tempo de sustentação dessa velocidade – tlimvVO2max.

Mas o que seriam vVO2max e tlimvVO2max?

A velocidade em VO2max é a menor velocidade capaz de gerar uma maior taxa de O2 muscular, enquanto o tempo de sustentação da vVO2max refere-se a duração máxima de sustentação dessa velocidade de forma contínua que dura, em média, 6 minutos e tem como melhor preditor a velocidade de Limiar de Lactato – VLA (Billat, 1999).

Correr na vVO2max aumenta a força e a potência muscular de membros inferiores e, esse aumento, promove uma economia de corrida por conta da promoção de respostas neuromusculares mais eficientes e de coordenação, reduzindo o gasto energético.

Mas não é necessário fazer mais do que uma sessão semanal.

O ideal, segundo Billat, seria começar com sessões de 30 segundos de estímulo na vVO2max por 30 segundos de recuperação na metade da vVO2max repetindo os estímulos até não conseguir mais sustentar a velocidade, chegando até 18 repetições.

A partir daí, aumenta-se o tempo dos intervalos para 1 minuto mantendo o mesmo formato do modelo anterior com igual progressão.

Nas 4 a 6 semanas próximas a uma prova, Billat propõe uma sessão semanal de 3 minutos de estímulo por 3 minutos de recuperação até completar 5 repetições, desde que sustentando a intensidade.

Mas como você irá determinar a vVO2max? Corra a maior distância possível em 6 minutos e utilize a fórmula em seguida:

vVO2max (m/s) = distância percorrida / 360

O pace (min/km) da vVO2max pode ser estabelecido pela fórmula a seguir, multiplicando as casas centesimais por 60.

Pace vVO2max = 60 / (vVO2max*3,6)

LEMBRETE: esses modelos de treinamento intervalado devem ser aplicados em indivíduos treinados.

Fonte:

Modelo biopsicossocial da fadiga

Modelo biopsicossocial da fadiga

Tenho participado dos PRO Webinars elaborados pela treinadora Chlöe Lanthier.

No último entitulado “A Ciência da Fadiga” foram abordados os conceitos sobre fadiga, suas causas e como podemos treiná-la.

Nessa breve explicação, procurei realizar um resumo do conteúdo apresentado por Lanthier. Boa leitura.

Costumamos confundir a fadiga com exaustão.

Enquanto a exaustão seria a inabilidade de sustentar o trabalho para uma determinada atividade física, a fadiga poderia ser definida, simploriamente, como o decréscimo da produção da força. Conceito definido por Hopkins (1920).

Noaks (2004) propôs um modelo onde a fadiga seria relativa, estabelecida através da resposta sensorial visando prevenir o esgotamento total das reservas energéticas e colapso dos órgãos.

Em 2008, Marcora apresentou um novo modelo multifatorial, englobando não só aspectos biológicos, mas também psicológicos e sociais para determinar a fadiga.

Fadiga essa que estaria relacionada a consciente sensação do esforço realizado — percepção subjetiva do esforço, ou seja, conscientemente o cérebro determina quando parar o exercício sem uma interferência subconsciente como propôs Noaks.

Uma combinação entre decisão e percepção do esforço, em detrimento a fadiga muscular severa ou dor muscular, desempenharia um papel fundamental no encerramento do exercício.

E isso seria influenciado por fatores motivacionais e cognitivos, e pode ser treinado, alterando o mindset através de uma série de estratégias para elevar essa percepção do esforço. O que acabaria por levar a um incremento da performance.

Referência:

Por que devemos manter distância enquanto corremos em tempos de COVID-19.

Bom deixa eu começar pelo início.

No dia 27 de março desse ano, a Organização Mundial da Saúde publicou orientações sobre como se manter ativo durante a COVID-19.

Nessas orientações, a OMS faz uma série de considerações sobre a prática de exercícios ao ar livre, ressaltando sempre a obediência as restrições dos órgãos governamentais locais.

Mesmo assim, recomendo para meus alunos e atletas realizarem seus treinos dentro de casa e em ambientes minimamente controláveis (eu mesmo estou fazendo isso no momento!).

De um modo geral, tanto a OMS, quanto o Ministério da Saúde sugerem manter uma distância de segurança entre 1 e 2 metros entre as pessoas quando é necessário frequentar algum local público.

Mas qual seria a distância de segurança para quem deseja correr na rua?

Para responder essa pergunta, os engenheiros holandeses e belgas Blocken, Malizia, van Druenen e Marchal analisaram o padrão de deslocamento de partículas de saliva e suor enquanto corremos.

Quando alguém está correndo, respira, espirra ou tosse, as gotículas ficam e se espalham pra atrás no ar e quem vem logo atrás entra no slipstream e atravessa essa “nuvem”.

Blocken

Blocken et al., chegaram a essa conclusão simulando a ocorrência dessas gotículas durante uma corrida com pessoas em diferentes posições – geralmente esse tipo de modelagem é utilizado para a melhora do nível da performance de atletas (corredores, triatletas e ciclistas) ao determinar qual o melhor posicionamento em relação a seu adversário de modo a sofrer menor resistência do ar.

Enquanto para os atletas, mais próximo e dentro da slipstream melhor, no caso da COVID-19 o inverso é mais sensato.

Com base nesses resultados, aconselham a manutenção de uma distância de segurança entre 4 a 5 metros com um posicionamento diagonal para corredores que estejam num mesmo sentido e , em caso de ultrapassagem, levar em conta esse posicionamento e essa distância no início da aproximação.

Uma informação que dever ser levada em consideração quando você sair para correr na rua (por favor evite se expor sem necessidade).

DICAS (caso pretenda correr na rua):

  • Siga as orientações das autoridades locais
  • Procure um local bem arejado e amplo
  • Busque horários de pouca frequência
  • Ao encontrar outro corredor, mantenha 4 a 5 metros de distância de segurança
  • Antes de entrar em casa, tire os tênis e lave as solas com água e sabão
  • Tire sua roupa e lave imediatamente, caso não o faça, guarde-a em local separado
  • Higienize acessórios lavando com água e sabão ou utilizando álcool 70%
  • Tome banho.

E só então cuide da sua hidratação e alimentação.

Bons treinos e divirta-se, mas sempre om a orientação de um profissional de Educação Física e seguindo as determinações dos órgãos oficiais locais.

Referência bibliográfica:

Exercício, imunidade e COVID-19

O Prof. Dr. Renato Alvarenga fez uma série de considerações a respeito a prática de exercício físico e sua provável interferência na atuação do sistema imunológico.

Nesse texto, procurei sintetizar suas considerações. Boa leitura.

De início precisamos entender como as células exterminadoras naturais ou NK (do inglês Natural Killer Cell) — um tipo de linfócitos citotóxicos necessários para o funcionamento do nosso sistema imune natural, funcionam.

São células que têm uma importante função no combate a infecções virais e diferem dos integrantes da imunidade adaptativa por reagirem de maneira rápida, em poucas horas, durante a entrada de um vírus no organismo, sendo uma linha rápida de defesa.

Hallabchi et al. (2020) observaram um aumento na contagem de dessas células após atividade física moderada, confirmando o efeito positivo do exercício físico para respostas do sistema imunológico contra infecções respiratórias virais.

Isso é muito bom, porém quando atividades são muito prolongadas ou excessivas são realizadas por indivívduos não adaptados a essa carga de treino, a atividade das NKs é desviada dedivo sua migração ara os sítios de microlesões causados pelo treinamento (Timmons, Tranopolsky e Bar-Or, 2006), reduzindo sua atuação principal no organizmo por algum tempo.

Já Peijie Chen e colaboradores (2020), da Xhanghai University of Sport, corroboram com Hallabachi, quando afirmam que existem claros benefícios para manutenção da prática regular de exercícios físicos por indivíduos saudáveis nesse momento.

A esse respeito, Chen cita os doutores Steven Blair e Ken Powell ao afirmarem que “alguma atividade física é melhor que nenhuma” e sugere realizar pelo menos 30 minutos de atividade física moderada em casa todos os dias ou 20 minutos de atividade mais intensa a cada dois dias.

A forma ideal, seria uma combinação de sessões, alternando a intensidade das cargas a cada dia, com exercícios que aumentam a força regularmente, mesmo que usando o peso corporal.

Os pesquisadores sugerem caminhar dentro de casa (se houver pouco espaço, corrida estacionária), levantar e carregar pesos moderados, realizar alternâncias de afastamento de membros inferiores com saltos, subir escadas, sentar e levantar, agachamentos variados, exercícios para o CORE e flexões.

Com base nessas informações, podemos indicar algumas precauções e sugestões quanto a prática de exercícios de força em casa.

Mais do que nunca, recuperar a energia celular e adaptar tranquilamente sem excessos, é o mais importante, pois quando isso não é feito adequadamente aumenta o processo inflamatório, desviando suas NK para o que você não quer neste momento, as microlesões induzidas pelo esforço.

Deixe suas células Natural Killers (NK) em alta atividade para lutar contra o vírus que está ai, e não para socorrer as microlesões de uma sobrecarga muscular excessiva e localizada.

Orientações:

  • Evite fazer exercícios muito diferentes do que faz, sempre que possível use os que já realizava rotineiramente.
  • Se fizer algum exercício novo, realize inicialmente poucas repetições para ir dominando a mecânica do movimento, fazendo o assincronismo entre as unidades motoras funcionarem sem comprometimentos estruturais.
  • Aumente a intensidade gradativamente. Não é porque está com muito tempo que você agora pode compensar tudo que não fez antes.
  • Não é hora de realizar controle calórico extremos, associados a volumes elevados de exercícios, pois você precisa levar os tijolinhos de aminoácidos para os músculos construirem suas paredes de proteínas, sem estresse.
  • Seu sistema imunológico tem que estar bem, sem overtraining, com nível adequado de cortisol circulatório.
  • Exercícios multiarticulares (burppees, agachamentos, flexões, etc.) possibilitam maior alternância de fibras, desde que não use a falha concêntrica como meta de repetições.
  • Se tiver tempo, dilua as séries durante o dia, não sobrecarregue com um treino de alto volume e intensidade, gerando mais microlessões.

Lembre-se, de que há momentos na vida que treinamos o corpo para comer nossa própria gordura. Há momentos em que meta é nos tornarmos mais fortes e, há momentos, como este, que treinar nosso sistema imunológico é mais importante.

Referências:

Exercício, envelhecimento e saúde

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A grande maioria da população anseia viver por muito tempo.

Mas envelhecer sem saúde ou qualidade de vida, dependendo de outrem para realizar suas atividades diárias não é bom para ninguém. Deveríamos buscar a alternativa mais sensata que inclui uma alimentação balanceada e a prática regular de exercícios físicos.

Os professores Renato Alvarenga e Leonardo Matta publicaram uma série de postagens sobre os efeitos do exercício e envelhecimento nas suas redes sociais, exaltando a importância da prática regular de exercícios físicos e o envelhecer bem, das quais eu procurei fazer uma síntese a fim de que possa demonstrar o quão importante é atribuir um breve tempo na sua agenda diária a prática de exercícios físicos sob a orientação de um profissional de Educação Física. Boa leitura.

A prática regular de exercício mantém nossos tecidos saudáveis e jovens biologicamente por mais tempo, atenuando o processo de envelhecimento através da manutenção do comprimento dos telômeros – uma “tampa” que protege nossos cromossomos – pelo estímulo da telomerase, enzima que impede seu encolhimento.

A produção de tal enzima seria estimulada pela prática de exercícios físicos, uma vez que indivíduos ativos possuem um comprimento maior dos telômeros em leucócitos e células do tecido muscular esquelético em comparação a não-atletas e não-ativos.

Mas a coisa não para por aí… O lactato, resíduo metabólico decorrente do exercício físico é uma excelente fonte de energia para o cérebro e estimularia a secreção de uma proteína chamada Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro – BNDF. Esse fator estimula a renovação do tecido nervoso, as conexões entre as células nervosas e a memória.

Só que o BNDF também é encontrado dentro da célula muscular atuando localmente, e quando estimulado pela contração muscular, atua na melhora dos processos oxidativos, ou seja, da obtenção de energia tendo como fonte os carboidratos e lipídeos.

Já deu para entender que realizar exercícios físico de forma regular irá fazer com que você tenha uma vida mais saudável ao longo do tempo.

Busque a orientação de um profissional de Educação Física e comece a mudar seu futuro já.

Referências:

 

Bom humor

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A fadiga mental é um estado psicobiológico causado por períodos prolongados de atividade cognitiva e é caracterizada por uma combinação de manifestações subjetivas, comportamentais e fisiológicas específicas.

Van Cutsem e colaboradores (2017) publicaram uma revisão sistemática sobre o assunto visando desvendar se o cansaço mental prejudicaria o desempenho físico, procurando criar uma visão geral dos fatores potenciais.

Um total de onze artigos foram selecionados e tinham, como principal objetivo, o estudo do declínio da performance de endurance em função da fadiga mental, associado a uma percepção subjetiva de esforço acima do normal.

Os pesquisadores verificaram que as variáveis fisiológicas tradicionalmente associadas ao desempenho de endurance (freqüência cardíaca, lactato sangüíneo, captação de oxigênio, débito cardíaco, VO2), assim como, a força máxima e potência não foram afetadas diretamente pela fadiga mental durante e após o esforço. Isso os levou a concluir que a duração e a intensidade do esforço são mais impactantes no declínio da performance física do que a fadiga mental.

Em termos práticos, esses achados sugerem que a percepção subjetiva do esforço maior do que o normal e o desempenho reduzido da resistência são, respectivamente, um marcador psicológico e comportamental da fadiga mental.

Além disso, para otimizar o desempenho, as tarefas mentalmente exigentes devem ser evitadas antes das competições de endurance, uma vez que, é provável que as altas demandas cognitivas do esporte sejam mais fatigáveis quando prolongadas ao longo do tempo.

Isso abre oportunidades para melhorar a performance nos esportes de endurance, seja através de estratégias para diminuir da carga cognitiva antes e durante a competição e/ou para aumentar a resistência aos efeitos negativos da fadiga mental na percepção subjetiva do esforço e, consequentemente, no desempenho de endurance.

Link para o artigo original:

Lições de uma ultramaratona

2016. Esse é o ano em que decidi correr uma ultramaratona. Foi após ter completado minha primeira maratona e ter continuado a correr por mais 6km até o ponto de ônibus onde retornaria para minha casa.

Se corri quase 48km, por que não 50km?

Resolvi me preparar da melhor forma possível. Como não tinha experiência com atletas de ultradistâncias, recorri ao conhecimento alheio, buscando fontes e bibliografias que me ajudassem entender algumas peculiaridades sobre o tema.

Com o conhecimento renovado, iniciei minha preparação para aquela que seria minha primeira ultramaratona de montanha: os 50km Solo na XC Run Itaipava.

Numa gelada manhã de julho em 2017, alinhei na largada da prova. Saí forte, no primeiro trecho, o desafio era correr 900 metros por um rio de água igualmente gelada como o clima daquela manhã.

Passei pela primeira transição e continuei forte até a segunda transição, mas no terceiro trecho passei muito mal e acabei terminando a prova no km 30 dentro de uma ambulância no soro.

Doeu, doeu muito. Uma tomada de decisão equivocada me tirou da prova. Não atingi meu objetivo, minha meta.

Aquilo ficou martelando na minha cabeça. Precisava encarar novamente o desafio e mostra-me capaz.

2019. Numa manhã igualmente gelada de julho, alinho mais uma vez na largada. Focado e com uma estratégia muito bem definida, estabeleci uma meta: focar no agora, no presente.

Passo uma vez mais por aquele rio igualmente gelado e sigo em frente, primeiro posto de controle, primeira ascensão de 4km que me levam a 1.150  metros de altitude, chego inteiro. Na descida uma atleta pede ajuda, ofereço uma pastilha de sal, pergunto se está tudo bem e ela responde que “sim, é só uma cãimbra”.

Desço passo pelo segundo PC e sigo em frente, mantendo a rotina planejada e o foco no agora. O trecho é aquele no qual passei mal e acabei saindo da prova. Fico tenso, o trecho é duro, sigo. O cansaço bate.

Chego ao PC3, de agora em diante mergulho no vazio. tenho só uma noção do que está por vir. Por um momento me distraio e um descuido quase me tira da prova outra vez. Recobro o foco e tomo as providências necessárias para corrigir o desvio do plano e é nesse momento que vem chegando Seu Delino, um ultramaratonista pelo menos 10 anos mais velho do que eu, e me faz a clássica pergunta: “- Está tudo bem?”. Respondo que minhas pernas estão cansadas. Ele gentilmente me oferece um creme para passar nelas e aliviar um pouco o desconforto. Agradeço. Ele segue em frente.

Dali em diante, ultrapasso alguns outros competidores e no retorno a cidade, decido aumentar o ritmo.

Chego na ponte e faço o famoso salto, emergindo do outro lado, renascido. Falta pouco. Entro na arena e vejo minha família, outros participantes me aplaudem. Cruzo a linha de chegada emocionado, agradecendo.

Tive que percorrer 80km para chegar até ali.

Lições aprendidas:

  1. Planejar para atingir
  2. Agir para realizar
  3. Cooperar para ajudar
  4. Doar sem esperar
  5. Corrigir para manter
  6. Aceitar a ajuda
  7. Agradecer sempre

Correr é para todos. Maratona não!

Foto: arquivo pessoal

Segundo St. Pierre, em um corredor que tem um pace médio entre 3:45 e 2:30 min/km, a sua cadência pode variar entre 190 e 210 ppm.

Já segundo Lieberman, dependendo de como o pé aterriza no solo a cada passo (antepé ou retropé), a força de reação do solo (FRS) pode variar entre 1,5 a 2,7 vezes o peso corporal.

Baseado nas duas afirmações anteriores, utilizaremos o maratonista Eliud Kipchoge (detentor da melhor marca mundial na maratona, obtida na prova de Berlim em 2018 ao completar o percurso em 2:01:39) como referência (seu peso corporal é 56 kg) e levaremos em consideração uma FRS média de 2,1 vezes o peso corporal e uma cadência média de 200 ppm.

Com esses dados podemos elaborar o seguinte cálculo:

  • Distância (D) – 42,195 km
  • Pace (p) – 2:54 min/km
  • Cadência média (Ca) – 200 ppm
  • Peso corporal (P) – 56 kg
  • Força de Reação do Solo (FRS) – 2,1P
  • Tempo na Maratona (TnM): 2:01:39 horas = 121,6 minutos
  • Quantidade de passos totais (ptotais): TnM x Ca = 121,6 min x 200 ppm = 24.320 passos
  • FRS: 2,1 x 56 kg = 117,6kgf
  • Total FRS na maratona: FRS x ptotais = 117,6 kgf x 24.320 passos = 2,86 mil toneladas força.

São quase 3 mil toneladas força… Impressionante, né?

Agora imagine um corredor médio que tem um peso corporal maior que o de Kipchoge, que treina menos, é menos eficiente correndo, e que, por isso, fará o mesmo percurso em muito mais tempo, dando muito mais passos.

Correr pode ser para qualquer um, mas longas distâncias não.

Para isso será necessária uma preparação adequada através de um programa de treinamento específico e personalizado. Nada de sair correndo por aí ou seguir planilha genéricas de revistas e afins.

Além disso, é essencial que treinadores não se deixem contaminar pelo anseio do seu cliente/atleta em correr longas distâncias de qualquer maneira e tenham responsabilidade profissional, não antecipando etapas e dizendo não.

Bons treinos e divirta-se!

Referências:

Um passo de cada vez

Fonte: https://www.viajarentreviagens.pt/botswana/bosquimanos-os-senhores-do-kalahari/

Só somos bípedes, caminhamos e corremos sobres esses dois pés graças a adaptações evolutivas que se iniciaram há cerca de 4 milhões de anos.

Dentre as mais importantes, membros inferiores mais longos, rotação medial do eixo do fêmur, flexão dos joelhos, movimento pendular dos membros inferiores com mudança de centro de rotação, grandes e chatos ósseos calcâneos, e um hálux menor e mais próximo dos demais dedos dos pés.

Essas adaptações, entre outras, para a caminhada com passos largos nos Australopitecos desempenhou um marco evolutivo transformando hominíneos em andadores de resistência, bem adaptados para caminhadas longas por ambientes abertos e tornando-os capazes, em tempos de escassez, de buscar novas fontes de alimentos, migrando.

Mas o “grande salto” ocorreu com o surgimento dos caçadores-coletores, com destaque para o Homo Erectus, há cerca de 2,5 milhões de anos, e sua necessidade de obter grandes fontes calóricas de alimentos.

Suas adaptações evolutivas os tornaram mais eficientes.

Com membros inferiores entre 10 a 20 porcento mais longos (descontadas as diferenças do tamanho do corpo) do que seus predecessores Australopitecos, conseguiam cobrir as mesmas distâncias mais depressa e com um custo energético menor.

Baseados na investigação de pegadas encontradas no Quênia com 1,5 milhão de anos, supõe-se que seus pés tinham estruturas muito próximas as dos humanos modernos, inclusive, com um arco plantar plenamente desenvolvido.

Para suportar as cargas das forças aplicadas em cada membro enquanto caminhavam (essas cargas podem chegar ao dobro quando comparada a um animal quadrúpede), ossos e articulações mais grossos e densos.

Além disso, um corpo mais esguio e alto do Homo Erectus favorecia o resfriamento da temperatura corporal através do suor e da menor exposição da superfície corpórea a radiação solar direta.

Mas para obter uma quantidade apropriada de calorias, o Homo Erectus precisava correr.

Existem evidências de que nossos ancestrais já haviam desenvolvido a capacidade de correr longas distâncias com velocidades moderadas em condições de muito calor.

Tudo isso para obter uma maior quantidade de proteína e garantir uma dieta rica em calorias para si, sua fêmea e sua prole.

As adaptações adjacentes e a necessidade de se obter uma fonte de alimento mais calórica ajudariam a transformar o corpo humano de maneira decisiva e nos tornaram um dos melhores mamíferos corredores de longas distâncias.

 

Referências bibliográficas:

Bramble, D. M. & Lieberman, D. E. Endurance running and the evolution of Homo. Nature, 432, Pp. 345-352, 2004.

Lieberman, D. E. A História do Corpo Humano: Evolução, saúde e doença. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

 

Doping por vaidade

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Para quem não sabe a Eritropoietina ou EPO, também conhecida por hemopoetina é produzida por fibroblastos intersticiais nos rins e em células perisinusoidais no fígado, predominando a produção renal durante a idade adulta.

A EPO é responsável por controlar a produção de glóbulos vermelhos, garantindo o transporte de oxigênio para as células do corpo.

A baixa da pressão parcial em oxigênio (como em ambientes de alta altitude), a diminuição do número de glóbulos vermelhos causada por uma hemorragia ou por uma destruição excessiva, e/ou o aumento da necessidade de oxigênio pelos tecidos levam a um aumento da secreção de EPO.

O contrário como, a aumento da pressão parcial de oxigênio, dos glóbulos vermelhos e/ou o excesso de oxigênio nos tecidos diminui a sua secreção.

No campo esportivo, principalmente entre atletas de endurance, até hoje utiliza-se o método de treinamento em altitude ou simulando altitude com o objetivo de aumentar a secreção de EPO, permitindo uma maior produção de glóbulos vermelhos e com isso, melhor transporte de oxigênio para as células musculares.

Tudo se tratando de adaptações do organismo ao ambiente em si e sem auxílio algum de recurso exógeno.

Algo muito parecido acontece quando atletas se utilizam de um método manipulação do sangue para obter o mesmo resultado, administrando ou reintroduzindo sangue ou qualquer dos subprodutos dos glóbulos vermelhos nos seu sistema circulatório.

Esse método ficou conhecido como Doping Sanguíneo e consta na lista de substância e métodos proibidos pela WADA – Agência Mundial Anti-Doping, cujo primeiro relato científico ocorreu em 1947.

A finalidade seria aumentar a potência aeróbia máxima e o rendimento submáximo durante o exercício por conta da maior capacidade de transporte de oxigênio em virtude do aumento artificial de glóbulos vermelhos, pois existe uma relação direta entre a quantidade total de hemoglobina e o consumo máximo de oxigênio.

Para cada 275 ml de concentrado de hemácias é possível aumentar a capacidade de transporte de oxigênio em 100 ml, gerando um potencial extra de meio litro de oxigênio por minuto. O que poderia melhorar a performance entre 15% a 30% em provas de endurance.

Mas tal método coloca em risco a vida, pois aumenta a viscosidade sanguínea, podendo reduzir o trabalho cardíaco, a velocidade do fluxo de sangue e a concentração de oxigênio periférico, com uma menor capacidade aeróbia, além de aumentar o risco de trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar.

De modo exógeno e com intuito de obter resultados parecidos, a EPO passou a ser utilizada por atletas, substituindo o doping sanguíneo, por evitar o risco de infecção e o inconveniente do armazenamento do sangue.

Mas como o método sanguíneo já citado, os riscos são similares e também faz parte da lista de substâncias e métodos proibidos pela WADA.

Infelizmente, a popularização da prática de esportes de endurance associada a necessidade cada vez maior de exposição nas redes sociais leva vários atletas amadores a utilizar a EPO como atalho para superar seus pares.

Recentemente, a jornalista Carol Barcellos da TV Globo realizou uma excelente matéria (assista o video) sobre o uso dessa substância por atletas amadores.

Isso vai ao encontro do imediatismo pelo resultado sem a dedicação e o esforço necessário para conquistar o aprimoramento da performance desejado.

Mas isso não tem nada de novo, com o “bum” do fitness e do culto ao corpo lá pela década de 80, o uso de substâncias e métodos proibidos no mundo esportivo passou a ser muito comum entre praticantes de atividades físicas, principalmente nos salões de musculação.

A meta era: ficar grande, forte e magro com o mínimo de esforço no menor tempo possível para ostentar um físico privilegiado sem pensar nas consequências e riscos.

Por trás da maioria dos casos, uma grande frustração e necessidade de afirmação da sua identidade extremamente custosa para saúde, gerando grandes transtornos sociais e emocionais, além de trazer graves danos físicos e risco de morte.

Antes de entrar nessa, faça uma pergunta a si mesmo:

“Será que o que estou prestes a fazer irá trazer mais benefícios a minha saúde e ao meu estilo de vida ou vale à pena investir nessa colocando minha saúde em risco?”

Ficou na dúvida e quer minha opinião? A resposta deve ser NÃO.

Busque sempre a orientação de um professor de educação física especializado, visite seu médico regularmente, mantenha seu check-up em dia e cuide da sua alimentação com um nutricionista.

Bons treinos e divirta-se!

Referências:

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