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Lições de uma ultramaratona

2016. Esse é o ano em que decidi correr uma ultramaratona. Foi após ter completado minha primeira maratona e ter continuado a correr por mais 6km até o ponto de ônibus onde retornaria para minha casa.

Se corri 46km, por que não 50km?

Resolvi me preparar da melhor forma possível. Como não tinha experiência com atletas de ultradistâncias, recorri ao conhecimento alheio, buscando fontes e bibliografias que me ajudassem entender algumas peculiaridades sobre o tema.

Com o conhecimento renovado, iniciei minha preparação para aquela que seria minha primeira ultramaratona de montanha: os 50km Solo na XC Run Itaipava.

Numa gelada manhã de julho em 2017, alinhei na largada da prova. Saí forte, no primeiro trecho, o desafio era correr 900 metros por um rio de água igualmente geladas como o clima daquela manhã.

Passei pela primeira transição e continuei forte até a segunda transição, mas no terceiro trecho passei muito mal e acabei terminando a prova no km 30 dentro de uma ambulância no soro.

Doeu, doeu muito. Uma tomada de decisão equivocada me tirou da prova. Não atingi meu objetivo, minha meta.

Aquilo ficou martelando na minha cabeça. Precisava encarar novamente o desafio e mostra-me capaz.

2019. Numa manhã igualmente gelada de julho, alinho mais uma vez na largada. Focado e com uma estratégia muito bem definida, estabeleci uma meta: focar no agora, no presente.

Passo uma vez mais por aquele rio igualmente gelado e sigo em frente, primeiro posto de controle, primeira ascensão de 4km que me levam a 1.150  metros de altitude, chego inteiro. Na descida uma atleta pede ajuda, ofereço uma pastilha de sal, pergunto se está tudo bem e ela responde que “sim, é só uma cãimbra”.

Desço passo pelo segundo PC e sigo em frente, mantendo a rotina planejada e o foco no agora. O trecho é aquele no qual passei mal e acabei saindo da prova. Fico tenso, o trecho é duro, sigo. O cansaço bate.

Chego ao PC3, de agora em diante mergulho no vazio. tenho só uma noção do que está por vir. Por um momento me distraio e um descuido quase me tira da prova outra vez. Recobro o foco e tomo as providências necessárias para corrigir o desvio do plano e é nesse momento que vem chegando Seu Delino, um ultramaratonista pelo menos 10 anos mais velho do que eu, e me faz a clássica pergunta: – Está tudo bem?. Respondo que minhas pernas estão cansadas. Ele gentilmente me oferece um creme para passar nelas e aliviar um pouco o desconforto. Agradeço. Ele segue em frente.

Dali em diante, ultrapasso alguns outros competidores e no retorno a cidade, decido aumentar o ritmo.

Chego na ponte e faço o famoso salto, emergindo do outro lado, renascido. Falta pouco. Entro na arena e vejo minha família, outros participantes me aplaudem. Cruzo a linha de chegada emociando, agradecendo.

Tive que percorrer 80km para chegar até ali.

Lições aprendidas:

  1. Planejar para atingir
  2. Agir para realizar
  3. Cooperar para ajudar
  4. Doar sem esperar
  5. Corrigir para manter
  6. Aceitar a ajuda
  7. Agradecer sempre

Correr é para todos. Maratona não!

Foto: arquivo pessoal

Um maratonista que mantém um pace médio em torno de 3min/km (20km/h), sua cadência pode variar entre 190 e 210ppm (Adam St. Pierre, Carmichael Training Systems).

Dependendo de como o pé aterrisa no solo a cada passo (antepé ou retropé), a força de reação do solo (FRS) pode variar entre 1,5 a 2,7 vezes o peso corporal (Lieberman, Harvard University).

Baseado nas duas afirmações anteriores, imaginemos que esse maratonista tivesse 60kg de peso corporal (Eluid Kipchoge tem 56kg) e levemos em consideração uma FRS média de 2,1 vezes o peso corporal.

Com esses dados podemos elaborar o seguinte cálculo:

Distância (D) = 42,195km

Pace (p) = 3min/km

Cadência (Ca) = 200ppm

Peso corporal (P) = 60kg

Força de Reação do Solo (FRS) = 2,1P

Tempo na Maratona (TnM) = D x p = 42,195km x 3min/km = 126,6 minutos

Quantidade de passos totais (ptotais) = TnM x Ca = 126,6min x 200ppm = 25.320 passos

FRS = 2,1 x 60kg = 126kgf

Total FRS na maratona = FRSp x ptotais = 126kgf x 25.320 passos = 3,2 kilotoneladas força (1,6ktf por cada pisada).

Impressionante, não é?

Agora imagine um corredor médio que tem um peso corporal maior que o hipotético, treina menos, é menos eficiente correndo e portanto, fará o mesmo percurso em muito mais tempo, com uma cadência maior.

Correr pode ser para qualquer um, mas longas distâncias não.

Para isso será necessária uma preparação adequada através de um programa de treinamento específico e personalizado. Nada de sair correndo por aí ou seguir planilha genéricas de revistas e afins.

Além disso, é essencial que treinadores não se deixem contaminar pelo anseio do seu cliente/atleta em correr longas distâncias de qualquer maneira e tenham a responsabilidade profissional em não antecipar etapas e dizer não.

Bons treinos e divirta-se!